Noção de Interlocução PDF Print E-mail

Texto de Apoio


Objetivo geral:
A noção de interlocução é importantíssima para qualquer trabalho com a linguagem. Partindo do pressuposto que a linguagem é o meio de interação entre as pessoas e que é socialmente compartilhada, temos como evidente que os indivíduos a ajustam, artificial ou naturalmente, dependendo de quem são (interlocutores), de onde estão e do fim visado (situação de comunicação).

A noção de interlocução - que envolve os dois interlocutores e a situação - é uma noção fundamental para qualquer trabalho com a linguagem. Foi escolhida por nós como uma das competências necessárias para se chegar a ser um bom leitor e um bom usuário da língua, falada e escrita, porque a língua que nos interessa estudar e analisar é a língua em uso, que se dá entre aquele que fala ou escreve e aqueles que lêem ou escutam. A noção de interlocução, além de supor a existência de um locutor (o sujeito que fala ou escreve) e de alguém a quem a enunciação é dirigida (o interlocutor), supõe necessariamente a existência de uma situação, a situação de comunicação. É só no cruzamento de um locutor com um interlocutor numa situação específica que um enunciado ganha sentido.

Tomemos como exemplo a frase Estou com frio. É possível imaginar diversas situações em que ela poderia ser proferida e os mais variáveis sentidos que poderiam ser a ela atribuídos:

1) Feche a janela, por favor.
2) Você sempre deixa a janela aberta.
3) Me aqueça.
4) Vamos embora?

Tomemos como segundo exemplo a frase Há mendigos novamente morando embaixo da ponte. Imagine a diversidade de sentidos que ela pode ter, se proferida por um vereador preocupado com o embelezamento de sua cidade, se proferida por uma assistente pessoal,se proferida por um comerciante das redondezas, etc.

Uma situação de escrita ou mesmo de fala não se dá sempre em forma de diálogo. Isto não significa, no entanto, que não haja um locutor, um interlocutor e uma situação de comunicação. Um conto, por exemplo: ele é narrado por alguém (neste caso, temos um narrador como locutor) e ele é escrito para alguém (os interlocutores, neste caso, são leitores imaginados). Um discurso de um candidato a um cargo político tem como locutor, obviamente, o candidato; como interlocutores, os possíveis eleitores, os partidários e os adversários; a eles o político se dirige e a eles tentará sensibilizar, comover, persuadir, dissuadir.

Chegamos assim a perceber que a noção de interlocução traz outra, atrelada a ela: a noção de adequação da linguagem aos interlocutores, à situação de comunicação e à intenção.

Nas atividades a serem desenvolvidas pelos alunos, propomos que, de início, os termos que designam os interlocutores sejam o mais possível intuitivos: a pessoa que fala, o falante, a pessoa que escreve, o autor; a pessoa para quem se escreve, o leitor, a pessoa para quem se fala, o ouvinte. Aos poucos, deve-se introduzir termos mais precisos (evitando-se as designações codificador, decodificador, emissor e receptor, já que são termos que carregam consigo o conceito da língua como código ou como mero canal de transmissão de informações). Optamos por usar, para os dois agentes da comunicação, o termo interlocutores; quem fala ou escreve será o locutor ou o 1o. locutor; o outro será o interlocutor ou o 2o. locutor (na medida em que não cabe a ele somente ouvir, receber, mas também participar da produção de sentidos, ser agente da comunicação). Quando se tratar de um texto em forma monologal, cremos que o ideal não seria tratar os interlocutores como 1o. e 2o. locutores ou como locutor e interlocutor mas sim como normalmente os trataríamos: de um lado, autor, romancista, jornalista, narrador; de outro, leitor.