Abstração PDF Print E-mail

Texto de Apoio


Objetivo geral:
Em nosso cotidiano, freqüentemente brincamos com o significado das palavras. Muitas vezes, queremos dizer mais do que de fato dizemos ou, pelo contrário, podemos ser mal interpretados quando nossos interlocutores entendem além do que queremos dizer. Isso acontece porque a linguaguem pode simbolizar o mundo de diversas maneiras e é comum deslocarmos seus sentidos. A capacidade de abstração nos permite identificar e trabalhar com essas diferentes formas de significar da linguaguem.


.....Esta última competência com que vamos trabalhar – Capacidade de Abstração – não é diferente das outras que vimos: no seu cotidiano, você também se utiliza desta capacidade, sem se dar conta disso.

.....Imagine que você está chegando a uma cidadezinha onde você nunca esteve antes. Apesar disso, você sabe que ela tem uma igreja, uma prefeitura, uma delegacia, um hospital, e esses lugares estão, provavelmente, no centro da cidadezinha. E você sabe disso porque consegue fazer relações entre esta cidade e outras que você já conhece, abstraindo/generalizando o que é comum entre elas.

.....Imagine outra situação: você está parado no trânsito e ouve uma sirene. Imediatamente, todo mundo começa a pensar, por exemplo, onde deve haver um incêndio, ou onde houve um acidente, porque o som da sirene lembra estes fatos, ainda que você não esteja presenciando concretamente nenhum deles.

.....Pense no que você está fazendo agora, ao ler este texto, e imaginando estas situações diversas. Você está apenas pensando, abstraindo essas imagens, não está presenciando nenhuma destas situações. E, mesmo que você nunca tenha passado por nenhuma delas, você consegue formulá-las em sua mente, com tranqüilidade. Pois bem, você tem, portanto, Capacidade de Abstração.

.....Talvez uma das capacidades mais instigantes no exercício da escrita e da leitura seja a abstração. O caráter simbólico da linguagem dá a ela a característica de ser algo com o qual nomeamos as coisas e falamos sobre elas ao mesmo tempo em que nos construímos como sujeitos da linguagem. O que isso significa? Significa que nossa relação com as coisas passa, necessariamente, pela linguagem, somos sujeitos de linguagem; nossa percepção de mundo, nossa apreensão dos objetos do mundo se dá pela linguagem. É por ela que nos constituímos como sujeitos.

.....Dizer, então, que a linguagem representa a coisa é reduzir a natureza da linguagem: afinal, se cada um de nós, ao escrever, escolhe, corta e substitui palavras por sinônimos, é porque há, na linguagem, algo mais do que um significado que estaria acoplado às palavras. Acreditamos que, se a linguagem for vista como mera reprodutora de pensamentos e representante das coisas, quem escreve ou lê jamais vai entendê-la plenamente no seu aspecto simbólico. As coisas lidas serão entendidas ao pé da letra; o que for escrito será a reprodução exata do que é percebido ou entendido. Não restará à linguagem aquilo que, de fato, lhe é o mais importante: sua capacidade de dizer não dizendo e de não dizer dizendo. Também será furtado da linguagem aquilo que nela importa (e não pouco): sua característica de ser produtora de sentidos e de sujeitos (de linguagem). Escrever ou falar sobre algo deverá ser entendido, agora, não exatamente como “escrever e falar sobre algo” mas como produzir sentido a partir de algo e colocar-se como sujeito de sua produção.

.....Para conseguir um certo efeito, muitas vezes dizemos ou escrevemos alguma coisa, esperando que a pessoa a quem se destinam as palavras entendam outra coisa. Há textos, como os de jornais, os informativos ou os jurídicos, que buscam uma linguagem direta e objetiva, que não querem permitir aos leitores interpretar de outra maneira o que está escrito. (Observemos que isto não é sempre possível, nem sempre desejado.) Em outros textos, como as histórias, as fábulas, algumas passagens bíblicas, o que está dito é dito de uma forma que induz o leitor a buscar mesmo outro sentido, além do expresso pelas palavras.

.....As parábolas trazidas pelos Evangelhos são um bom exemplo disto: através delas, é feita uma pregação. Segundo o dicionário Aurélio, parábola é Narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior. Em uma parábola, podemos identificar dois sentidos. O primeiro é o literal, no qual temos o sentido que conseguimos com o próprio texto, sem comparar com outros elementos exteriores. O segundo é o não literal, onde devemos chegar, buscando elementos externos retirados de nossos conhecimentos de mundo do contexto em que os textos se inserem.

.....Já a fábula, por sua vez, é uma pequena história que tira do fato relatado uma lição moral. No entanto, diferentemente da parábola, não há comparações explícitas. É só pela presença da moral que se atinge o sentido não literal.

.....Nas atividades que aqui propomos para trabalhar com a Capacidade de Abstração, o objetivo maior é mostrar, então, que as palavras não têm um sentido fechado em si mesmas, que é possível falar de uma coisa falando outra, que é necessário duvidar do sentido das palavras, que é preciso, muitas vezes, partir de algo que parece concreto, abstrair (ou generalizar) e para depois, sim, chegar a um sentido. É o que fazemos:
- quando exclamamos: – Que anjinho que é este bebê!
- ou quando declaramos: – Estou com pressa. Tenho que ir voando.
- ou quando afirmamos: Sua vida era um conto de fadas.

..... Queremos trabalhar, portanto, com a abstração necessária ao uso da linguagem. Por sua natureza, a linguagem é simbólica; ela significa o mundo, ela não é o mundo. Nessa passagem, algumas coisas se perdem e outras se acrescentam às palavras. Como disse o filósofo Ortega y Gasset, toda palavra é, ao mesmo tempo, deficiente – diz menos do que quer – e exuberante – dá a entender mais do que se propõe.



Bibliografia consultada:

CORRÊA, M.L.G. Linguagem & comunicação social: visões da lingüística moderna. São Paulo, Parábola, 2002.
ORTEGA Y GASSET, J. Dificuldade da leitura. Trad. Sergio F. Danese e D.V. Barenboim. Brasília, Ed. UnB, 1983.