Onde nem tudo é verdade 2 PDF Print E-mail

TEXTO PARA AS ATIVIDADES 1 - 6

MORLEY, Helena. Minha vida de menina

Segunda–feira, 3 de setembro

Sexta–feira tio Joãozinho esteve na cidade. Veio buscar dinheiro e outras coisas de que precisava. Como tinha um cavalo desocupado, lembrou-se de me levar com meu pai no dia seguinte. Eu fui, e sendo obrigada a andar duas léguas calada, pois meu tio não tinha conversa, fui fazendo castelos. Fiz o castelo de achar um diamante grande e ficar rica, e a coisa foi crescendo tanto pelo caminho que quando que quando cheguei a Boa Vista eu estava milionária. Eu nem sabia mais que fazer com tanto dinheiro.

Chegando lá, em vez de ir para o rancho com meu tio, toquei para a lavra para fazer surpresa a meu pai.

Fui apeando e correndo e correndo para a lavadeira; meu pai até tomou susto, coitado. Ele estava assentado debaixo da barraca fiscalizando o serviço, com os pés tão inchados que só naquela hora eu caí na realidade. Disparei a rir e contei a meu pai os meus castelos. Ele também riu e me disse: “Desde que isto te distrai, vá continuando a fazê-los, não faz mal. Mas fique sabendo minha filha, nunca pense em muito dinheiro, que não dá felicidade a ninguém e à vezes até tira. Peça a Deus só que não nos deixe faltar o necessário. Não somos tão felizes? Você se trocaria por qualquer de suas amigas ou primas ricas?†Quis que meu pai montasse no animal e eu viesse a pé, mas ele não quis. Então eu vim com ele a pé até a o rancho, ele segurando a rédea do cavalo.

Apesar dos conselhos de meu pai, eu não podia deixar de pensar que, se encontrasse mesmo um diamante tão grande, não o deixaria andar aquela distância, todos os dias, com os pés tão inchados, coitado. Ele é tão bonzinho!

TEXTO PARA AS ATIVIDADES 7 - 13

ROSA, João Guimarães: Manuelzão e Miguilim (Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 9ªed., 1984).

p.124 e 125

Era dia-de-domingo, Pai estava lá, veio correndo. Pegou Miguilim, e o levou para casa, debaixo de pancadas. Levou para o alpendre. Bateu de mão, depois resolveu: tirou a roupa toda de Miguilim e começou a bater com a correia na cintura. Batia e xingava, mordia a ponta da língua , enrolada, se comprazia. Batia tanto, que Mãe, Drelina, e a Chica, a Rosa, Tomezinho, e até Vovó Izidra, choravam, pediam que não desse mais, que já chegava. Batia. Batia, mas Miguilim não chorava. Não chorava porque estava com um pensamento: quando ele crescesse, matava Pai. Estava pensando é de que jeito ia matar Pai, e então começou até a rir. Aí, Pai esbarrou de bater, espantado: como tinha batido na cabeça também, pensou que Miguilim podia estar ficando doido.
- “Raio de menino indicado, cachorro ruim! Eu queria é um dia poder abençoar teus calcanhares e tua nuca!...†– ainda gritou. Soltou Miguilim, e Miguilim caiu no chão. Também não se importou, nem queria se levantar mais.
E Miguilim chorou foi lá dentro de casa, quando Mãe estava lavando com água-com-sal dos lugares machucados em seu corpo. – “Mas, meu filhinho, Miguilim, você, por causa de um estranho, você agride um irmão seu, um parente?†“- Bato! Bato é no que é pior, no maldoso!†Bufava. Agora ele sabia, de toda certeza: Pai tinha raiva com ele, mas Pai não prestava. A Mãe o olhava com aqueles tristes e bonitos olhos. Mas Miguilim também não gostava mais da Mãe. Mãe sofria junto com ele, mas era mole – não punia em defesa, não brigava até o fim por conta dele, que era fraco e menino, Pai podia judiar quanto queria. Mãe gostava era do Luisaltino... Mas até parece que ela adivinhava o pensamento de Miguilim, tanto que falava: - “Perdoa o teu Pai, que ele trabalha demais, Miguilim, pra gente poder sair de debaixo da pobreza...†Mas Miguilim não queria chorar mais. Podiam matar, se quisessem, mas ele não queria ter mais medo de ninguém, de jeito nenhum. Demais! Assoou o nariz. – “Pai é homem jagunço de mau. Pai não prestaâ€. Foi o que ele disse com todo desprezo.

p.132

De repente, no outro dia, Miguilim estava capinando, só sentia aquele mal-estar, tonteou: veio um tremor forte de frio e ele começou a vomitar. Deitou-se ali mesmos, no chão, escondendo os olhos, como um bichinho doente.

p.134
Agüentar aquela dor parecia um serviço. E então Miguilim viu o Pai, e arregalou os olhos: não podia, jeito nenhum não podia mesmo ser. Mas era, Pai não ralhava, não estava agravado, não vinha descompor. Pai chorava estramontado, demordia de morder os beiços. Miguilim sorriu. Pai chorou mais forte: - “Nem Deus não pode achar isto justo direito, de adoecer meus filhinhos todos um depois do outro, parece que é a gente só quem tem que purgar padecer!?†Pai gritava uma braveza toda, mas por amor dele, Miguilim. Mãe segurou no braço de Pai e levou-o embora. Mas Miguilim não alcançava correr atrás de pensamento nenhum, não calcava explicação. Só transpirava e curtia frios.

MACHADO, Alcântara
Brás, Bexiga e Barra Funda

Mas era cousa muito diversa.

O Cav. Uff.1 Salvatore Melli alinhou algarismos torcendo a bigodeira. Falou como homem de negócios que enxerga longe. Demonstrou cabalmente as vantagens econômicas de sua proposta.

- O doutor...
- Eu não sou doutor, Senhor Melli.
- Parlo2 assim para facilitar. Non é para ofender. Primo3 o doutor pense bem. E poi4 me dê a sua resposta. Domani, dopo domani5, na outra semana quando quiser. Io6 resto à sua disposição. Ma7 pense bem!

Renovou a proposta e repetiu os argumentos pró. O conselheiro possuía uns terrenos em São Caetano. Coisas de herança. Não lhe davam renda alguma. O Cav. Uff. tinha a sua fábrica ao lado. 1.200 teares. 36.000 fusos. Constituíam uma sociedade. O conselheiro entrava com os terrenos. O Cav. Uff. com o capital. Arruavam8 os trinta alqueires e vendiam logo grande parte para os operários da fábrica. Lucro certo, mais que certo, garantidíssimo.

- É. Eu já pensei nisso. Mas sem capital o senhor compreende é impossível...
- Per Bacco, doutor! Mas io tenho o capital. O capital sono9 io. O doutor entra com o terreno, mais nada. E o lucro se divide no meio.

O capital acendeu um charuto. O conselheiro coçou os joelhos disfarçando a emoção. A negra de broche serviu o café.

- Dopo o doutor me dá a resposta. Io só digo isto: pense bem.

O capital levantou-se. Deu dois passos. Parou. Meio embaraçado. Apontou para um quadro.

- Bonita pintura.

Pensou que fosse obra de italiano. Mas era de francês.

- Francese? Não é feio non. Serve.

Embatucou. Tinha qualquer cousa. Tirou o charuto da boca, ficou olhando para a ponta acessa. Deu um balanço no corpo. Decidiu-se.

- Ia dimenticando10 de dizer. O meu filho fará o gerente da sociedade... Sob a minha direção, si capisce11.
- Sei, sei... O seu filho?
- Si. O Adriano. O doutor... mi pare... mi pare que conhece ele?

O silêncio do conselheiro desviou os olhos do Cav. Uff. na direção da porta.

- Repito un’altra vez: o doutor pense bem.

O Isotta Fraschini12 esperava-o todo iluminado.


- E então? O que devo responder ao homem?
- Faça como entender, Bonifácio...
- Eu acho que devo aceitar.
- Pois aceite...

E puxou o lençol.


A outra proposta foi feita de fraque e veio seis meses depois.

O Conselheiro José Bonifácio

de Matos e Arruda

e

senhora

têm a honra de participar

a V.Ex.ma família o

contrato de casamento de sua

filha Teresa Rita com o Sr.

Adriano Melli.

Rua da Liberdade, n0 259-C

O Cav. Uff. Salvatore Melli

e

senhora

têm a honra dee participar

a V.Ex.a e Ex.ma família o

contrato de casamento de seu

filho Adriano com a Senhorinha

Teresa Rita de Matos Arruda.

Rua da Barra Funda, n.0 427

S.Paulo 19 de fevereiro de 1927


No chá do noivado o Cav. Uff. Melli na frente de toda a gente recordou à mãe de sua futura nora os bons tempinhos em que lhe vendia cebolas e batatas, Olio di Lucca e bacalhau português, quase sempre fiado e até sem cardeneta13.

1Cav. Uff.: abreviatura da expressão italiana. Cavaliere Ufficiale (pronúncia: cavaliere ufitchale), título honorífico, hierarquicamente inferior aos títulos da nobreza. Diversos italianos que enriqueceram no Brasil compraram, na Itália, títulos honoríficos ou nobiliárquicos (conde).

2Parlo (it.): falo. A fala do cavaliere é uma mistura de italiano e português.

3Primo (it.): primeiro.

4Poi (it.): depois.

5Domani, dopo domani (it.): amanhã, depois de amanhã.

6Io resto (it.): eu fico.

7Ma (it.): mas.

8Arruar: abrir ruas para fazer loteamento.

9Sono (it.): sou.

10Dimenticando (it.): esquecendo.

11Si capisce (it.; pronúncia: si capiche): se entende.

12Isotta Fraschini (pronúncia: frasquini): automóvel italiano de grande luxo.

13Caderneta: caderno em que se anotavam as compras fiadas.