Universo da Ficção - textos PDF Print E-mail

TEXTO PARA A ATIVIDADE 1

POEMA RETIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro
[da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

(Libertinagem, Manuel Bandeira)

TEXTOS PARA AS ATIVIDADES 2 - 5

[25/4/2006]
Corpo encontrado por pescadores é de trabalhador desaparecido

Salvador - BA

Foi confirmado que o corpo encontrado por pescadores no último dia 13 de abril, boiando em alto mar, na Praia do Forte, é mesmo o do trabalhador João Marcos Vieira, 35, desaparecido desde o dia 30 de março.

A identificação foi possível graças à comparação entre as impressões digitais liberadas pela Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo, em cuja capital o trabalhador morava desde que nasceu. O corpo foi examinado por peritos de Salvador e São Paulo, e foi atestado que o mesmo não apresentava nenhum sinal de violência interna e nem externa, atribuindo como afogamento a provável causa da morte.

Um amigo da vítima, que veio acompanhar os trabalhos dos policiais, fez o reconhecimento. Uma tatuagem no braço do trabalhador também ajudou na identificação.

De acordo com a mãe de João, o último contato que teve com o filho foi no dia 30 de março, quando ele a informou que estava saindo de viagem sem informar para onde. No dia 10 de abril, o carro de João foi encontrado carbonizado em Salvador. A mãe ainda revelou que no ano passado seu filho planejou vir à Bahia, mas que a viagem não aconteceu.

O delegado José Maria de Almeida, de Salvador, informou que já está sendo feita uma perícia no carro do trabalhador e que em 30 dias terá o laudo final.

TEXTOS PARA AS ATIVIDADES 6 - 8

MORTE DO LEITEIRO


(A Cyro Novaes)


Há pouco leite no país
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

(A Rosa do Povo, Carlos Drummond de Andrade)