Universo da Prosa - textos PDF Print E-mail

TEXTO PARA AS ATIVIDADES 1 - 9

A MOÇA TECELÃ
Marina Colasanti


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio do ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

(In: Doze reis e a moça no labirinto do vento. São Paulo: Global Editora)

TEXTO PARA AS ATIVIDADES 10 E 11

A BELA ADORMECIDA
Fonte: adaptado de http://www.qdivertido.com.br/verconto.php?codigo=15


Era uma vez um rei e uma rainha poderosos e ricos, mas pouco felizes, porque não tinham filhos.

Os filhos não chegavam, e o casal real ficava cada vez mais triste. Não se alegravam nem com os bailes da corte, e em todo o castelo reinava uma grande melancolia.

Numa tarde, a rainha foi banhar-se no riacho. E, de repente, pulou para fora da água uma rãzinha.
— Majestade, não fique triste, o seu desejo se realizará logo: A senhora dará à luz uma menina.

E a profecia da rã se concretizou, e meses depois a rainha deu à luz a uma linda menina.

O rei fez uma grande festa de batizado para a pequena princesa Aurora. Convidou uma multidão de súditos: parentes, amigos, nobres do reino e, como convidadas de honra, as treze fadas que viviam nos confins do reino. Mas, quando os mensageiros iam saindo com os convites, o camareiro-mor correu até o rei, preocupadíssimo.
— Majestade, as fadas são treze, e nós só temos doze pratos de ouro. O que faremos? A fada que tiver de comer no prato de prata, como os outros convidados, poderá se ofender.

E uma fada ofendida…

O rei refletiu longamente e decidiu:
— Não convidaremos a décima terceira fada — disse, resoluto. — Talvez nem saiba que nasceu a nossa filha e que daremos uma festa. Assim, não teremos complicações.

Partiram somente doze mensageiros, com convites para doze fadas, conforme o rei resolvera.

No dia da festa, cada uma das fadas chegou perto do berço em que dormia a princesa Aurora e ofereceu à recém-nascida um presente maravilhoso:
— Será a mais bela moça do reino — disse a primeira fada, debruçando-se sobre o berço.
— E a de caráter mais justo — acrescentou a segunda.
— Terá riquezas a perder de vista — proclamou a terceira.

Onze fadas já tinham passado em frente ao berço e dado à pequena princesa um dom; faltava somente uma quando chegou a décima terceira, aquela que não tinha sido convidada por falta de pratos de ouro. Estava com a expressão muito sombria e ameaçadora, terrivelmente ofendida por ter sido excluída. Lançou um olhar maldoso para a princesa Aurora, que dormia tranqüila, e disse: — Aos quinze anos a princesa vai se ferir com o fuso de uma roca e morrerá.

E foi-se embora, deixando um silêncio desanimador e os pais desesperados.

Então aproximou-se a décima segunda fada, que devia ainda oferecer seu presente.
— Não posso cancelar a maldição que agora atingiu a princesa. Tenho poderes só para modificá-la um pouco. Por isso, Aurora não morrerá; dormirá por cem anos, até a chegada de um príncipe que a acordará com um beijo.

Passados os primeiros momentos de espanto e temor, o rei decidiu tomar providências: mandou queimar todas as rocas do reino. E, daquele dia em diante, ninguém mais fiava, nem linho, nem algodão, nem lã.

Aurora crescia, e os presentes das fadasestavam dando resultados. No dia em que completou quinze anos, o rei e a rainha estavam ausentes, ocupados numa partida de caça.

Talvez, quem sabe, em todo esse tempo tivessem até esquecido a profecia da fada malvada. A princesa Aurora, porém, estava se aborrecendo por estar sozinha e começou a andar pelas salas do castelo. Chegando perto de um portãozinho de ferro que dava acesso à parte de cima de uma velha torre, abriu-o, subiu a longa escada e chegou, enfim, ao quartinho. Ao lado da janela estava uma velhinha de cabelos brancos, fiando com o fuso uma meada de linho. A garota olhou, maravilhada. Nunca tinha visto um fuso.
— Bom dia, vovozinha.
— Bom dia a você, linda garota.
— O que está fazendo? Que instrumento é esse?

Sem levantar os olhos do seu trabalho, a velhinha respondeu com ar bonachão:
— Não está vendo? Estou fiando!

A princesa, fascinada, olhava o fuso que girava rapidamente entre os dedos da velhinha.
— Parece mesmo divertido esse estranho pedaço de madeira que gira assim rápido. Posso experimentá-lo também?

Sem esperar resposta, pegou o fuso. E, naquele instante, cumpriu-se o feitiço. Aurora furou o dedo e sentiu um grande sono. Deu tempo apenas para deitar-se na cama que havia no aposento, e seus olhos se fecharam.

Na mesma hora, aquele sono estranho se difundiu por todo o palácio: adormeceram no trono o rei e a rainha, recém-chegados da partida de caça; adormeceram os cavalos na estrebaria, as galinhas no galinheiro, os cães no pátio e os pássaros no telhado. Em volta do castelo surgiu rapidamente uma extensa mata. Tão extensa que, após alguns anos, o castelo ficou oculto. Nem os muros apareciam, nem a ponte levadiça, nem as torres, nem a bandeira hasteada que pendia na torre mais alta.

Nas aldeias vizinhas, passava de pai para filho a história da princesa Aurora, a bela adormecida que descansava, protegida pelo bosque cerrado. A princesa Aurora, a mais bela, a mais doce das princesas, injustamente castigada por um destino cruel. Alguns cavalheiros, mais audaciosos, tentaram sem êxito chegar ao castelo. A grande barreira de mato e espinheiros, cerrada e impenetrável, parecia animada por vontade própria: os galhos avançavam para cima dos coitados que tentavam passar: seguravam-nos, arranhavam-nos até fazê-los sangrar, e fechavam as mínimas frestas. Aqueles que tinham sorte conseguiam escapar, voltando em condições lastimáveis, machucados e sangrando. Outros, mais teimosos, sacrificavam a própria vida.

Um dia, chegou nas redondezas um jovem príncipe, bonito e corajoso. Soube pelo bisavô a história da bela adormecida que, desde muitos anos, tantos jovens a procuravam em vão alcançar.
— Quero tentar também.

No dia em que o príncipe decidiu satisfazer a sua vontade, completavam-se justamente os cem anos da festa do batizado e das predições das fadas. Chegara, finalmente, o dia em que a bela adormecida poderia despertar. Quando o príncipe se encaminhou para o castelo, viu que, no lugar das árvores e galhos cheios de espinhos, se estendiam aos milhares, bem espessas, enormes carreiras de flores perfumadas. E mais, aquela mata de flores cheirosas se abriu diante dele, como para encorajá-lo a prosseguir; e voltou a se fechar logo, após sua passagem.

O príncipe chegou em frente ao castelo. A ponte elevadiça estava abaixada e dois guardas dormiam ao lado do portão, apoiados nas armas. Nas grandes salas do castelo reinava um silêncio tão profundo que o príncipe ouvia sua própria respiração. A cada passo do príncipe, levantavam-se nuvens de poeira. O príncipe perambulou por longo tempo no castelo.

Enfim, achou o portãozinho de ferro que levava à torre, subiu a escada e chegou ao quartinho em que dormia A princesa Aurora.

A princesa estava tão bela, com os cabelos soltos, espalhados nos travesseiros, o rosto rosado e risonho. O príncipe ficou deslumbrado. Logo que se recobrou, se inclinou e deu-lhe um beijo. Imediatamente, Aurora despertou, olhou par ao príncipe e sorriu. Todo o reino também despertara naquele instante e logo o rei e a rainha correram à procura da filha e, ao encontrá-la, chorando, agradeceram ao príncipe por tê-la despertado do longo sono de cem anos.

O príncipe pediu a mão da linda princesa em casamento que, por sua vez, já estava apaixonada pelo seu valente salvador.
Eles, então, se casaram e viveram felizes para sempre!

TEXTO PARA AS ATIVIDADES 12 - 15

Leia o texto a seguir, retirado de um blog na Internet, e responda as questões:
EU QUERIA TER A “FORÇA†DA MOÇA TECELÃ…
Fonte:http://liusena.wordpress.com/2006/06/12/eu-queria-ter-a-forca-da-moca-tecela/


Queria ser forte o bastante para destecer este tapete já pisado, lavado, elogiado. Lágrimas encharcam e destroem este tapete que eu tanto me esforço para construir. É muito difícil esquecer este passado que me atormenta e me impede de continuar. Este nó que bloqueia a construção de uma obra de arte. Não tenho mais forças nas mãos para quebrar este nó, obstáculo que embaraça e atravanca tanto a linha que eu desejo puxar. Um desenho mal-feito me traz lembranças e mágoas que deixam este artesanato sombrio. As poucas pessoas desenhadas que dão um ar colorido a este tapete e me ajudam a tecer não entendem este sofrimento. Apenas uma quer que eu refaça e me da forças mentais, mais ainda não adquirir forças físicas para puxar a linha. As outras querem que eu continue a tecer e esqueça aquele desenho no canto do tapete. Não se pode continuar tecendo uma obra mal feita. De que valeria todo o esforço? Para no final você olhar o fruto de seu talento e ver a figura indesejada. Apenas queria ser forte como a Moça Tecelã e construir tudo de novo. As linhas coloridas já estão separadas para tecer o novo tapete, mas me faltam forças para puxar a linha e segurar a agulha. O nó continua sendo um obstáculo na construção de uma linda obra de arte, a vida.

TEXTO PARA AS ATIVIDADES 16 - 21

CLÃNICA DE REPOUSO
Dalton Trevisan

Dona Candinha deparou na sala o moço no sofá de veludo e a filha servindo o cálice de vinho doce com broinha de fubá mimoso.
- Mãezinha, este é o João.

Mais que depressa o tipo de bigodinho foi beijar a mão da velha, que se esquivou à gentileza. O mocinho sorvia o terceiro cálice, Maria chamou a mãe para a cozinha, pediu-lhe que o aceitasse por alguns dias.
- Como pensionista?

Não, hóspede da família. Irmão de uma amiga de infância, sem conhecer ninguém de Curitiba, não podia pagar pensão até conseguir emprego.

Dias mais tarde a velha descobriu que, primeiro, o distinto já estava empregado (colega de repartição da Maria) e, segundo, ainda que dez anos mais moço, era namorado da filha. A situação desmoralizava a velha e comprometia a menina. Dona Candinha discutiu com a filha e depois com o noivo, que achava a seu gosto a combinação.
- Sou moço simples, minha senhora. Uma coxinha de frango é o que me basta. Ovo frito na manteiga.

Dona Candinha os surpreendia aos beijos no sofá. A filha saía com o rapaz, voltavam depois da meia-noite. Às três da manhã a velha acordava com passos furtivos no corredor.
- Você põe esse moço na rua. Ou tomo uma providência.
- A senhora não seja louca.

Maria era maior, podia entrar a hora que bem quisesse, a velha estava caduca. Assim que a filha saiu, dona Candinha bateu na porta do hóspede, ainda em pijama azul de seda com bolinha branca:
- Moço, você ganha na vida. Tem como se manter. Trate de ir embora.

De volta das compras (delicadezas para o príncipe de bigodinho), a filha insultou dona Candinha aos gritos de velha doida, maníaca, avarenta.
- Não vai me dar um tostão para esse pilantra. Ai, minha filha, como eu me arrependo do dia em que noivou.

Maria nem pode responder:
- Eu, sim, me arrependo do dia em que a senhora casou.
Sentiu-se afrontada a velhota, com palpitação, tontura, pé frio. Arrastou-se quietinha para a cama, cobriu a cabeça com o lençol:
- Apague a luz – ela gemeu – que vou morrer.
Susto tão grande que o rapaz decidiu arrumar a mala. Manhã seguinte a velha pulou cedo, alegrinha espanou os elefantes de louça. A filha não almoçou e antes de bater a porta:
- O João volta ou saio de casa. A vergonha é da senhora.

Dona Candinha fez promessa para as almas do purgatório. Tão aflita, em vez de rezar por dia, rematou a novena numa tarde só.
- Menina, não se fie de moço com dente de ouro.
- Lembre-se, mãe, a senhora me despediu.
- Vá com seu noivo. Depois não se queixe, filha ingrata.

De tanto se agoniar dona Candinha caiu de cama.
- A senhora não me ilude. Finge-se doente para me castigar. Com este calor debaixo da coberta.
- Muito fraca. Eu suo na cabeça. O pé sempre frio.

Deliciada quando a moça trazia chá com torrada. Terceiro dia, a filha irrompe no quarto, escancara a janela. Introduz o gordo perfumado:
- O médico para a senhora.

O doutor examinou-a e, para o esgotamento nervoso, receitou a cura de repouso.
- A senhora vai por bem – intimou a filha. – Ou então à força.

Queria o convento das freiras e não o hospital, que lhe recordava o falecido, entrevado na cadeira de rodas. Umas colheradas de canja, cochilou gostosamente. Às duas da tarde, o aposento invadido pela filha, o noivo e um enfermeiro de avental sujo.
- É já que vai para a clínica.
- Eu vou se não for asilo de louco. Bem longe do doutor Alô.

Um táxi esperava na porta, o noivo sentou-se ao lado do motorista, ela apertada entre a filha e o enfermeiro. Quando viu estava no Asilo Nossa Senhora da Luz, perdida com doida, epilética, alcoólatra. Nunca entrava sol no pavilhão, a umidade escorria da parede, o chão de cimento. De noite o maldito olho amarelo sempre aceso no fio manchado de mosca.
- Quem reclama – era o sistema do doutor Alô – ganha choque!

Ao menor protesto de queixume:
- Olhe o choque, melindrosa! Olhe a injeção na espinha! Olhe a insulina na veia!

Um banheiro só e, depois de esperar na fila, aquela imundície no chão e na parede. A louquinha auxiliava a servente que, essa fazia de enfermeira. Intragável o feijão com arroz, dona Candinha sustentava-se de chá mate e biscoito duro. Engolia com esforço o caldo ralo de repolho.

Vinte e dois dias depois recebeu a visita da filha, o noivo fumava na porta.
- A senhora fazendo greve de fome?
- Na minha casa o arroz é escolhido, o feijão lavado.
- Só de braba não come.

Daí a tortura da sede. Servia-se da torneira do banheiro, não é que uma possessa vomitou na pia? Foi encher o copo, deu com tamanho horror. Embora lavada a pia, guardou a impressão e sofria a sede.
- Doidinha eu sou – disse uma das mansas. – Meu lugar é aqui. Mas a senhora, fazendo o quê?

Uma lunática oferecia-lhe bolacha e fruta. Mandou bilhete na sua letra caprichada, a filha só apareceu domingo seguinte.
- A senhora não está boa. Nem penteia o cabelo. Não cumprimenta o doutor Alô.
- Essa ingratidão não posso aceitar – e abafava o soluço no pavor do choque. – Não sou maluca e sei me mandar.
- Prove.
- Com o túmulo do seu pai. Já pintado de azul.

Instalado na casa, o noivo regalava-se com ovo frito na manteiga, coxinha gorda de frango.
- Quem não come – advertia a servente – vai para o choque!

Dona Candinha encheu-se de coragem e choramingou para a freira superiora que não tomava sol, sofria de reumatismo, com a gritaria das furiosas quem podia dormir?
Ao cruzar a enfermeira, a freira chamou uma das bobas:
- Você é nova aqui?
- Entrei ontem, sim senhora.
- Se tiver alguma queixa, fale com dona Candinha. – E batendo palmas de tanta graça. – É palhaçada de circo.

A servente largava o balde e o enxergão, sem lavar as mãos aplicava a insulina na veia de uma possessa. Dona Candinha fingia tossir e cuspia a pílula escondida no buraco do dente.
Chorando de manhã ao se lembrar do tempo feliz com o finado. À noite, chorava outra vez: menina tão amorosa, hoje a feroz inimiga. Não doía ter sido internada – culpa sua não sair da cama. Mas, sabendo o que sofria, a moça não a tirasse dali.
- Minha própria filha? – estalou baixinho a língua ressequida. – Que não me acudiu na maior precisão?

Surpreendida rondando o portão, confiscaram-lhe a roupa, agora em camisola imunda e chinelo de pelúcia. Sem se aquecer ao sol, sobrevivendo aos golinhos de chá frio e bolacha Maria. Tão fraca nem podia ler, as letras embaralhadas mesmo de óculo.
- Olhe essa mulher, doutor – era a filha, vestido preto de cetim, lábio de púrpura, pulseira prateada. – Domingo de sol, uma pessoa deitada? O dia inteiro chorando e se queixando.

Aqui não falta nada, que mais ela quer?
- Vá-se embora – respondeu docemente a velha. – Desapareça da minha vista. Você mais o dente de ouro.

De dia o rádio ligado a todo o volume. À noite, a gritaria furiosa das lunáticas. Sentadinha na cama, distrai-se a velha a espiar uma nesga de céu. Com paciência, amansa uma mosca das grandes, que vem comer na sua mão arrepiada de cócega. Há três dias, afeiçoada à velhinha, não foge a mosca por entre as grades da janela.

(In: LADEIRA, Julieta de Godoy (org.) Contos brasileiros contemporâneos. São Paulo, Moderna, 1994)

TEXTO PARA AS ATIVIDADES 22 - 28

UMA ESPERANÇA
Clarice Lispector

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve um grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.
- Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.

Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha, comentou o menino.
- Sei disso, respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.
- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- Sei, continuei mais infeliz ainda.

Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.
- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.
- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.

Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.

(in Felicidade Clandestina - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)